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TRAVESSA DOS POETAS DE CALÇADA

Acredito ter tido  a mesma sensação de estranhamento que  todos têm quando percebem a placa “Travessa dos Poetas de Calçada” que denomina o beco sombrio, mal conservado, que une a Av. Treze de Maio à Rua Senador Dantas, em pleno polo econômico, gastronômico e cultural do Centro do Rio de Janeiro, exatamente em frente à lateral da jóia arquitetônica do imponente Teatro Municipal – cartão postal para o mundo  e do outro lado o moderno  arranha-céu, um dos edifícios mais altos da cidade com seus 40 andares.  No beco, nenhum resquício, nenhum sinal que insinue poesia ou de que outrora tivesse havido algum movimento de poetas que justificasse a placa que, como as demais,  são erguidas para homenagear personalidades, grupos, locais, datas que tiveram relevância na história da cidade ou do país.

 No apertado corredor, um labirinto com saída de prédios comerciais, passagens internas para galerias de outros, restaurantes tradicionais e lojas .  Como tantos becos e travessas da cidade, mantêm um aspecto nostálgico, fadados ao abandono, não recebendo o mesmo tratamento das vias principais, retrofitadas em seus projetos urbanísticos.

Nas pesquisas, nenhuma informação sobre a origem, o histórico ou menção sobre tais poetas – dados não revelados como ocorre em tantas placas que trazem uma breve sinopse do que se pretende eternizar. E permanece invisível à maioria dos passantes que utilizam o espaço como atalho para chegarem mais rápido aos seus destinos.

Será que representaria uma parábola do que é ser poeta, de como é vista a poesia? Assim divago, dou asas à imaginação. Não seriam os poetas invisíveis em meio à turbulência da cidade, onde passos apressados têm por meta o cumprir compromissos agendados, o movimentar a máquina empresarial ou servir de ferramentas para procuras, encontros e desencontros e, por fim, finalizar com o mesmo movimento acelerado em meio ao “rush” para o retorno ao ponto de origem – o lar, no ir e vir incessante diário?  Ou no universo interior de cada um passante, cada pedestre que, na mesma força motriz acelerada, não se percebe além do frio exercício da corrida contra o tempo, entre desvio de barracas, camelôs, panfleteiros, limitando-se a cumprimentos mecanizados, refeições sem saborear o sabor de cada item, e sem condições de apreciar detalhes da cidade e da vida que se perde em meio ao intenso fluxo, a própria história e o sentido do estar no mundo?

Somos partes desta engrenagem, escravos do tempo que dita o nosso agir, que definem doses de estresse neutralizadoras da inspiração e do sentimento.  E a cidade nos revela tanto de si, de sua história, assim como cada ser vivente,  microcosmo do todo, tem muito a revelar de si e na interação com o mundo exterior, restringindo tudo aos estreitos labirintos deixando mais fluir evidentes preocupações,  truculências, mau humor e menos brilho no olhar que ilumina a alma e suaviza expressões da face?

De vez em quando um poeta, lobo solitário, tenta vender entre a multidão seu caderninho com  poesias artesanalmente encadernadas.  Tenta se fazer ouvir, porém passa por louco tentando comercializar “inutilidades”. Longe de competir com a arte das revistas das diversas bancas de jornais.

Assim como a poesia é algo que provoca no outro sensações, despertar de emoções, sentimentos, pelo seu alto poder de tocar o interior de cada um, de provocar, instigar realidades,  na ausência de algo que revele sua origem, rotulo-a como um pequeno obelisco só perceptível àquele que sai do fluxo e eleve um pouco mais o olhar acima do nível comum.  De outra forma, é apenas um corredor, caminho mais curto para se chegar ao destino.

 A perplexidade de quem descobre a placa  é natural e resume-se nela mesma, em sua história hermética,  no silêncio que leva à reflexão de quem seriam os beneficiários desta homenagem, de intervalo temporal fechado ou aberto, e possíveis sinais que poderiam dar indícios de sua permanência ali, à semelhança de detetives diante de complexo caso policial.  Ou poderia ser eu, você, qualquer transeunte do tempo mais remoto à atualidade, estendendo-se ao futuro que se despertaram ou despertarão ao fazer poético?

Ao pesquisar por um  site de buscas, nada encontrei, assim como percebe-se a mesma afirmação de outros que assim tentaram, restando o mistério que paira no ar.  Encerro o artigo de hoje com a música que encontrei do cantor Jerson Lima,  letra da poeta e escritora Raquel Less, a qual tomo a liberdade de transcrever aqui.

https://www.youtube.com/watch?v=L2W7YBJzcE0

TRAVESSA DOS POETAS DE CALÇADA

Na vida nada tenho e nada sou

Ando a mendigar pelas calçadas

Os trocados pra beber, e amor

Em todos os silêncios

E nas noites estreladas

Poemo, sem saber pra onde vou

Tive na boca um sorriso

E o brilho em meu olhar, quem os roubou?

Minhas rosas desfolhadas, quem pisoteou?

Poemo sem saber pra onde vou

Quem foi que sobre a vida acovardada

Teve nas mãos minha alma

E em mal-querer a desfolhou?

Poemo sem saber pra onde vou

Agora vou cantando e mendigando

Em voz que persiste o longo grito

E não me importo que me vejam rastejando

Quem dera não ser poeta

Uivando os brados deste amor maldito

Poemo sem saber pra onde vou.

                                                                          (Artigo por    Edna Queiroz)

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