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POESIA EM MEIO ÀS PERPLEXIDADES DO COTIDIANO

No artigo anterior “Travessia”,  falávamos sobre o momento do fazer poético:    “Não seria o maior fervilhar de sentimentos, algo tão intenso que faz com que o interior transborde e o indivíduo sinta a necessidade de expandir por não caber mais em si?

Bem sabemos que a inspiração é a  força motriz que promove a fecundação da alma  que, prenha de sentimentos, dá a luz à poesia, que traz em si o DNA de todas as percepções e vivências do seu criador. Nasce então a arte, no  corpo de um poema ou canção e alcançará o mundo exterior, interagindo com as vidas que encontrar pelo caminho.

Ao se falar em inspiração, vem logo à mente o clima de romantismo, prazer,  num local aconchegante, entre memórias,  sabores e sensações que serão as preliminares do ato. Será?

E quando a dor, o lamento e a perplexidade  assolam o interior, ferem a alma, apertam o peito, dão um nó na garganta, transbordam-se em lágrimas, ainda assim, há clima para esta relação poética?

Será que as múltiplas tragédias do cotidiano teriam o poder de nos deixar impotentes, frios, insensíveis diante do fazer poético e assim perderíamos a cadência, as sensações, o ritmo, o êxtase, o prazer, a dimensão do nosso próprio eu – nossa essência?

Então, a mágica da poesia é que, independente das circunstâncias, ela subsiste.   Nestes últimos acontecimentos que têm chocado a sociedade brasileira e o mundo, fazemos estas reflexões e deixamos pra você, leitor, estas questões.

Trazemos a poesia “MUNDO MODERNO” do  grande Escritor autor de diversos livros, Ator,  Humorista, Comentarista, Compositor, Diretor, Radialista, Músico,  Roteirista:    Chico Anysio,    a quem rendemos  um tributo.  Sempre antenado com o seu momento presente,  usava com maestria a palavra, sua matéria-prima, para falar do amor, da dor de estar no mundo. Fazia da comédia , que ao provocar o riso,   um convite a grandes reflexões e questionamentos sobre a vida, suas nuances, incluindo as tragédias que brotam no seio social.   MUNDO MODERNO, é um monólogo cuja letra segue abaixo.  Aprecie este espetáculo, esta arte poética para o hoje.   De preferência, ouça-o na voz deste grande poeta.  (link https://www.dailymotion.com/video/x3fq7cw  ou outro link a pesquisar).

 

“MUNDO MODERNO

Moderno, marco malévolo.

Mesclando mentiras, modificando maneiras,

Mascarando maracutaias, majestoso manicômio.

Meu monólogo mostra: mentiras, mazelas, misérias,  massacres,

Miscigenação, morticínio, maior maldade mundial.

Madrugada, matuto magro, macrocéfalo mastiga média morna.

Monta matungo malhado,

Munindo machado, martelo, mochila murcha.

Margeia mata maior,

Manhazinha move moinho,

Moendo macaxeira, mandioca.

Meio-dia, mata marreco, manjar melhorzinho.

Meia-noite, mima mulherzinha, mimosa,

Maria morena, momento maravilha,

Motivação mútua, mas monocórdia mesmice.

Muitos migram, macilentos, maltrapilhos,

Morarão modestamente, malocas metropolitanas,

Mocambos, miseráveis.

Menos moral, menos mantimentos,

Mais menosprezo, metade morre.

Mundo maligno, misturando mendigos maltratados,

Menores metralhados, militares mandões.

Meretrizes, marafonas, mocinhas, meras meninas,

mariposas mortificando-se moralmente.

Modestas moças maculadas,

Mercenárias mulheres marcadas, mundo medíocre.

Milionários montam mansões magníficas.

Melhor mármore, mobília mirabolante.

Máxima megalomania, mordomo, mercedes, motorista,

Mãos magnatas manobrando milhões,

Mas maioria morre minguando.

Moradia, meia-água, menos, marquise.

Mundo maluco, máquina mortífera.

Mundo moderno melhore, melhore mais.

Melhore muito, melhore mesmo, merecemos.

Maldito mundo moderno, mundinho merda.”    (Chico Anysio)

 

A apresentação do monólogo foi no ano 2000, na virada do milênio.  Muito significativo,  momento cheio de expectativas até mesmo no imaginário popular que profetizava bugs e o fim.  Neste contexto, o Brasil completava 500 anos. E o que mudou?

Neste momento, de intensos dramas sociais, percebemos a atemporalidade do fazer poético.  E a poesia cumprindo uma de suas múltiplas facetas que é a de exteriorizar percepções com arte, independente das circunstâncias.

Por Edna Queiroz

 

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