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Objetos Cortantes

“Como você se mantém segura quando seu dia inteiro é largo e vazio como o céu?”

– Camille Preaker

“Objetos Cortantes” ou, como alguns preferem, “Sharp Objects”, é o primeiro livro de Gillian Flynn, lançado em 2006, tendo sua primeira versão traduzida no Brasil quase dez anos depois, em 2015, pela editora Intrínseca. Com suas 251 páginas, sem sombra de dúvidas, é um romance metódico e intrigante, narrado em primeira pessoa.

A autora se tornou mundialmente conhecida após um de seus romances, “Garota Exemplar”, ter sua adaptação para o cinema, em 2014, com o famosinho Ben Affleck no papel principal. Logo, o mundo conheceu a genialidade das palavras da jornalista e decidiu mostrar um pouquinho mais do seu talento por aí. No início de 2018, uma série homônima baseada em “Objetos Cortantes”, iria ao ar pela HBO, com a talentosíssima Amy Adams como protagonista, dando mais visibilidade para Flynn e fazendo milhares de pessoas comprarem o livro.

Uma dessas pessoas, claro, fui eu. Demorou um pouco para eu cair de cabeça, mais uma vez, na história primogênita de Gillian, contudo cá estou agora, então vamos lá!

A trama gira ao redor de Camille Preaker, uma jornalista de quase trinta anos, que tem sérios problemas psicológicos e emocionais envolvendo sua família e sua adolescência repleta de acontecimentos trágicos. Camille é obrigada a confrontar os traumas do passado quando seu chefe, Frank Curry, a manda cobrir uma suposta matéria sobre assassinatos em série na sua antiga cidadezinha misógina e conservadora, Wind Gap, localizada na ponta do estado americano de Missouri.

Logo que chega à cidade, começa a investigar o caso de uma menina morta com os dentes arrancados e o desaparecimento de uma outra, a dois dias. Se hospeda na casa da família, com quem não fala a mais de um ano. A ideia de ter uma irmã concebida quando ela estava na faculdade e que nunca conheceu, as lembranças da irmã morta quando ainda era adolescente, o mau relacionamento com a mãe, Adora Crellin, quem nunca pareceu gostar de Camille; diversos fatores que fazem a estadia na cidade ser um enorme peso para a protagonista, sem contar todas as lembranças dos traumas externos à casa e as informações preocupantes sobre os crimes.

 

“Richard queria que eu o levasse a todos os lugares secretos da cidade, os cantos que só os locais conheciam. Lugares onde as pessoas se encontravam para trepar ou fumar maconha, onde adolescentes bebiam ou sujeitos iam sentar sozinhos para decidir em que momento suas vidas tinham desandado. Todo mundo tem um momento em que a vida sai dos trilhos. O meu foi no dia em que Marian morreu. O dia em que peguei aquela faca vem em segundo, quase empatando.”

 

Camille é uma personagem tão bem construída pela autora que parece que a qualquer momento vai saltar do papel e nos devorar com sua angústia. Com ideias complexas sobre si mesma e um conformismo de anos, é uma representação completamente humana da melancolia e desesperança. Aliás, todos os personagens são excepcionalmente ativos, profundos, e até as socialites superficiais que bebem Bourbon e fumam escondido antes das dez da manhã, possuem uma veracidade incrível.

A descrição de Gillian Flynn é na medida certa, a narrativa tem um fluxo honesto e os acontecimentos não soam atropelados, com reviravoltas certeiras. A única coisa que deveria ficar clara é: definitivamente não é a história de uma investigação, apesar da protagonista trabalhar em uma; essa é a história das origens de Camille, das descobertas de quem ela é, do que aconteceu realmente com Marian, sua irmã morta a quinze anos atrás, o porquê das coisas serem como são. Quem é o assassino das garotinhas? é apenas uma das questões que o livro tem a responder para nós e para a jornalista.

O livro nos traz reflexões tristes sobre a sociedade: a protagonista e seu problema com a automutilação, que se torna explícito a partir do capítulo quatro; o conceito de violência, sobre até que ponto o merecimento de um ato tira a culpa de um agressor, tendo em vista o “tecnicamente” estupro induzido que uma garota sofreu aos treze anos, por ir com quatro garotos para a floresta; o limite entre amor e dependência afetiva, representado por Adora e Amma, a irmã desconhecida de Camille; a inveja de pessoas que têm tudo e ainda se sentem vazias; a hierarquia da beleza como instinto primitivo de sobrevivência numa sociedade, dado pelo grupo de meninas loiras de seios fartos que “mandam” em todas as outras garotas por serem as mais bonitas; e, a grande questão a qual Camille não se desprende, que é a questão familiar de estar conectado com pessoas tão tóxicas ao ponto de fazer alguém querer morrer.

Qualquer um com uma vivência mais dolorida, pronto para se identificar com os temas que estão por toda a parte, podem encontrar na história um consolo ou uma prisão. Para mim, foi como estar presa numa cidade pequena, tendo apenas Camille de pessoa sensata para conversar. Sendo a narrativa um grande mergulho sobre como a jornalista se sente e vê a situação, a automutilação, ideias pessimistas, represália familiar e desesperança vital, podem ser muito asfixiantes (ainda mais para quem tem algum transtorno mental/emocional ou tendências suicidas/depressivas).

Com certeza, recomendaria o livro para todo e qualquer ser pensante, contudo é preciso ter cuidado. É um texto desafiador, apesar de fácil e bastante cru. O final é um estrangulamento enfaticamente lento e, se nas mãos de um leitor influenciável demais, pode causar uma leve ruptura na confiança que temos na humanidade.

Creio eu que “Objetos Cortantes” é uma enfadonha crítica ao conservadorismo e ideais retrógrados que podem, sim, destruir uma sociedade – apodrecendo-a de dentro para fora. Entretanto a autora conseguiu criar um universo nebuloso, caótico e verossímil, fazendo-nos amar ou odiar cada personagem, fazendo-nos pensar e sentir demasiadamente a essência de uma vida cheia de frustrações e desejos irrealizados. Fazendo-nos questionar a nós mesmos.

Além disso, a Amy Adams como Camille na série, é uma obra prima!

Então, se você está prestes a ler o livro ou assistir a série (que não é tão fiel, contudo satisfaz bastante), minhas únicas recomendações são: preste bastante atenção aos detalhes, afinal você vai estar entrando numa investigação, e e prepara o coração, porque o final é de fazer qualquer um querer ficar na cama por uma semana comendo Nutella com torrada para voltar a aceitar que a vida pode ser doce.

Deixe nos comentários o que achou do livro se você já leu e boa leitura para os que decidirem mergulhar em mais essa aventura por Wind Gap e suas histórias cortantes!

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