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Matthew Quick em: O lado bom da vida

Pat Peoples acaba de sair de uma clínica psiquiátrica em Baltimore, chamada por ele de “lugar ruim”, e seu único objetivo de vida é se tornar uma pessoa melhor para poder voltar a rever sua esposa e terminar com o “tempo separados”. Enfrenta diversos impasses como: voltar a morar na casa dos pais em Nova Jersey, lidar com o relacionamento conturbado com o pai, se adaptar ao tempo perdido que, ele descobre, ser bem mais do que onze meses, encarar a realidade dos fatos e ainda se manter positivo, exercitando-se em seu Stomach Master 6000 e correndo pela cidade com sacolas plásticas para perder calorias no suor. Tudo parece se agitar quando conhece Tiffany, com quem cria uma amizade estranha e, paradoxalmente, confortável.

O Lado Bom da Vida é um livro delicado, intenso, sufocante e escruciantemente vívido. Matthew Quick tem essa magia que não se vê todo dia, de conseguir criar um elo entre o leitor e sua obra, moldando personagens com personalidade e ideais bastante simples e genuínos. É inevitável se identificar com diversas vertentes de pensamento básicas, pois cada personagem carrega uma bagagem verdadeira.

O livro foi publicado originalmente em 2008, e só teve sua edição traduzida no Brasil, pela editora Intrínseca em 2012. No ano seguinte, o mundo inteiro começaria a se interessar pelo título, que teve sua adaptação cinematográfica estrelada por Bradley Cooper e Jennifer Lawrence. Um filme que deu muito o que falar, concorrendo em diversas premiações, como o Globo de Ouro e o Oscar. Contudo, em matéria de Pat Peoples, mesmo com a atuação impecável de Cooper, o longa-metragem deixa muito a desejar.

Uma das coisas mais fascinantes é que a história, mesmo com alguns detalhes improváveis e meio malucos, ainda assim, poderia ser a de qualquer pessoa. Uma história possível de ser vivida. Algo que poderia ser real, e que torna ainda mais notória a simpatia do público pelos personagens e pelo livro em si. Diversas vezes me peguei pensando em como me identificava com determinadas atitudes do Pat, da Tiffany, da mãe do Pat, e até mesmo do Ronnie (amigo do Pat).

Pat Peoples é um protagonista tão fragmentado, tão cheio de emoções. A maneira que Quick transcreve seus pensamentos ininterruptos só nos retifica e traz a ansiedade, a explosão mental, a sensação de ter mil pensamentos por minuto. Mesmo assim, com sua visão positiva e seus argumentos sobre literatura americana e finais felizes, é impossível não sorrir com sua esperança estimulante, que ultrapassa as páginas do livro e saltam de encontro aos nossos corações, sabendo que, mesmo não sendo tudo mil maravilhosas, ainda estamos vivos e podemos ter um final feliz. E esse final pode nos surpreender com a ideia óbvia de que, às vezes, não é o que queríamos que acontecesse, porém é igualmente bom, ou até melhor do que esperávamos. E, talvez, esta seja a grande moral do livro.

Utilizando do time de futebol americano, Eagles, romances clássicos, como A Redoma de Vidro e O Grande Gatsby, entre diversos outros detalhes da realidade, a narrativa corre com uma fluidez incrivelmente natural, nos apresentando a uma Cultura curiosa. Há momentos bem cômicos, como os diversos diálogos de Pat e os demais torcedores dos Eagles gritando “Aaaaaaaaaaaaah” e cantando o hino do time. Mas também há momentos em que dá vontade de bater no Pat e dizer “foda-se a Nikki”. Todas essas emoções nos levam a uma humanidade sutil, que nos faz entender porque o livro é um verdadeiro sucesso, e provavelmente daqui a uns anos, um verdadeiro clássico como Hemingway.

“De repente eu me sinto como se estivesse prestes a explodir. Definitivamente sinto um episódio de crise se aproximando, então, antes de explodir, faço a única coisa que me vem à cabeça: começo a correr pela praia para longe de Veronica, de Ronnie, de Emily, do choro e das acusações. Corro o mais rápido que posso e, de repente, percebo que agora sou eu quem está chorando, provavelmente porque estava apenas nadando com Emily e estava me sentindo tão bem, e estava tentando ser bom e pensando que de fato estava sendo bom, e eu decepcionei o meu melhor amigo, e Veronica gritou comigo, o que não é justo, porque tenho tentado tanto, e quanto tempo este maldito filme vai durar, e quão mais precisarei me aperfeiçoar e…

Tiffany me ultrapassa.

Passa por mim como um borrão.

De repente, só uma coisa importa: preciso ultrapassá-la.”

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