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Dzi Croquettes: Os libertários

 

Salve amigo(a) leitor(a)!

Para quem tem menos de 40 anos, não presenciou a explosão de androgenia, cultura, teatro, atitude e arte dos Dzi Croquettes.

Em abril de 1964, o Brasil se inseriu em um dos períodos mais complicados de sua história. Durante 21 anos, o país foi governado por militares em um sistema ditatorial. Este período foi marcado pelo veto aos direitos, opressão policial e censura – tanto aos canais de informação, quanto às produções culturais.

Em dezembro de 1968, com a decretação do Ato Institucional no 5, o regime ditatorial brasileiro se tornou ainda mais fechado. A alternativa à luta armada se dava no campo comportamental com o desbunde e a irreverência. Foi, portanto, no coração de um governo opressor que surgiu um movimento tão ousado do ponto de vista dos costumes.

Um grupo talentoso composto de 13 homens dançando vários ritmos, misturando o teatro com humor, stand up e muita ideologia crítica a política ditatorial composta no Brasil nos anos de 1970. Os Dzi Croquettes lotaram cabarés e teatros cariocas e paulistas em uma época de repressão. Tiveram até as primeiras tietes brasileiras.

Nasceu no bar o nome de um dos grupos teatrais mais revolucionários que já tivemos. A paródia ao norte-americano The Coquette teve inspiração no petisco sobre a mesa. “Como croquete, todo mundo é feito de carne”, pensaram. A música Tá Boa, Santa? define: Não sou dama nem valete / Eu sou um Dzi Croquette. Inspirados em um bloco de carnaval muito comum no Rio de Janeiro, o Bloco das Piranhas, eles decidiram se vestir de mulher, deixando à mostra pernas e peitos cabeludos. Acreditavam que não existiria afronta maior contra os militares.

A repetição da letra ‘t’ e o ‘Dzi’ (um aportuguesamento espirituoso do artigo da língua inglesa ‘the’) foram inspirados no conjunto norte-americano The Coquettes. E assim, com humor e criatividade, uma das maiores manifestações de contracultura da História do Brasil ganhou forma.

O conjunto montou, em 1972, o espetáculo Gente Computada Igual a Você. Os próprios intérpretes criavam os personagens e figurinos. Dois nomes se destacam na equipe: o ator, cantor e compositor Wagner Ribeiro (dono da grife Embaixada de Marte), e o coreógrafo e bailarino nova-iorquino Lennie Dale.

Este, adorado pela crítica, trouxe a tradição do profissionalismo da Broadway à música popular brasileira. “Ele transformou um monte de mocorongos em bailarinos profissionais”, afirma um dos antigos membros. Além dos dois, o grupo contava com Cláudio Gaya, Cláudio Tovar, Ciro Barcelos, Reginaldo de Poli, Bayard Tonelli, Rogério de Poli, Paulo Bacellar, Benedictus Lacerda, Carlinhos Machado e Eloy Simões.

Os 13 homens peludos no palco, ora trajando vestidos, ora apenas enormes asas de borboletas, sempre com muita maquiagem e brilho, tinham algo de andrógino.

Uniam textos cômicos a incríveis números de dança, combinando linguagem de cabaré com samba e bossa nova. O dançarino norte-americano Lennie Dale, já consagrado no meio artístico brasileiro nos anos 60, encontrou no grupo seu paraíso e acrescentou profissionalismo aos corpos talentosos.

Os Dzi Croquettes lotaram cabarés e teatros cariocas em uma época de repressão. Tiveram até as primeiras tietes brasileiras. Pudera: foram eles que criaram o termo para as garotas que não perdiam uma apresentação.

As mais fiéis chegaram a formar um grupo secundário – quem não lembra ou nunca ouviu falar de As Frenéticas?

Os Dzi Croquettes eram uma mistura entre espírito libertário e invenção artística. Eles foram influenciados por diferentes manifestações culturais, como o teatro de vanguarda, o jazz, a bossa-nova e o movimento gay.

Com o passar do tempo, se tornaram influência para outros artistas, inclusive para o teatro de humor que ficou conhecido como besteirol, e se consagrou com programas de televisão como Armação Ilimitada e TV Pirata.

“Eu, hein?”, “Meu amor, te contei…” “Já foi!”.

A turma que participava da cena usava as gírias próprias do vocabulário “dzi”.

Wagner e Lennie mudaram o conceito de espetáculo daquela época: os Dzi, como eram chamados, não foram apenas atores ou dançarinos. Os shows alternavam quadros clássicos de clowns, imitações, pole-dancing, tango, bolero e improvisações.

Ainda que não seja possível ter acesso aos textos na íntegra, os trechos disponíveis e as imagens de arquivo demonstram um humor sarcástico, o uso de diversas línguas (sempre com um sotaque cômico carregado) e o rompimento de barreiras entre artista e plateia. Em Paris, depois de ter sido censurado, o grupo alcançou fama inimaginável, em parte pelo apoio da estrela Liza Minnelli.

Em documentário sobre a trupe, Gilberto Gil defende que talvez tenha sido “a primeira manifestação do movimento gay brasileiro, ao mesmo tempo com discurso político”. As bandeiras ali eram da inovação, revolução de comportamento, libertação sexual.

“A ditadura apagou qualquer imagem existente dos Dzi Croquettes”, disse Tatiana Issa, que tem uma relação especialmente próxima do assunto: é filha de Américo Issa, cenógrafo e iluminador do grupo, e morou com os artistas que, segundo ela, eram “como palhacinhos que enfeitavam sua vida”.

Claro, não demorou para que surgissem problemas com a censura do governo militar. A comunidade Dzi, que vivia na mesma casa, embarcou para Europa sem produtor ou agenda. Em Paris, o grupo virou coqueluche.

O tom sentimental do filme, entretanto, não vem somente dos diretores. A aceitação, a admiração e, mais do que isso, a vontade de falar sobre os Dzi é notável em todos os entrevistados. Nomes como Nelson Motta, Pedro Cardoso, Aderbal Freire-Filho, Gilberto Gil, dentre outros, perceberam o quão injusto era deixar cair no esquecimento um movimento cultural tão relevante. Aparentemente, o público e a crítica concordam: Dzi Croquettes tornou-se um dos documentários mais premiados do país.

“Procuramos no Google e vimos que não havia nada”, comentou Tatiana. Poucas décadas depois de terem revolucionado palcos do Brasil e da Europa, quase ninguém lembra dos Dzi. A pesquisa foi tão difícil que muitas histórias foram construídas no processo de filmagem, contaram os diretores.

“No dia em que eu morrer, quero que o espetáculo que substitua o meu seja o do Dzi Croquettes”, elogiou Josephine Baker. Ninguém esperava que a vedete morresse mesmo e que sua vontade fosse cumprida. Assim ela tirou os artistas da penúria, na qual estavam por conta de um empresário larápio.

O filme é permeado por uma sensação de que tudo aquilo aconteceu há muito mais do que 40 anos, e de que havia risco real de esquecimento. Isso provavelmente se dá por conta dos muitos finais tristes dentro do conjunto.

Somente quatro, dentre os trezes Dzi originais, estão vivos. A AIDS, que na época era associada exclusivamente aos homossexuais e por isso chamada de câncer gay, teve um papel decisivo nessas baixas.

Apesar dos inegáveis avanços em relação ao movimento gay e à luta pela liberdade de expressão, essas bandeiras levantadas pelos Dzi Croquettes permanecem erguidas até hoje. O grupo continua na vanguarda, e faz com que nossa época pareça quase careta diante de tanta irreverência. Não há dúvida de que eles fizeram barulho. Era preciso apenas ouvi-lo.

Durante os anos de 73 e 74, o grupo fez longas temporadas no Le Palace e no Teatro Bobino. Na plateia, atores como Omar Sharif e Catherine Deneuve, o estilista Valentino, a modelo Marisa Berenson, o cantor Mick Jagger, a atriz Josephine Baker, entre tantos outros. Os Dzi também participaram do filme “Le Chat et la Souris”, do cineasta francês Claude Lelouch. Nesse meio tempo, estiveram também em turnê pela Itália e, depois, em Londres. O sucesso era inegável e os rapazes finalmente começaram a ganhar dinheiro.

Surge então um convite para a Broadway, em Nova York. Ao mesmo tempo, um fazendeiro brasileiro convida o grupo para voltar ao Brasil e ir até a Bahia. As opiniões se dividiram, mas aqueles contra o retorno foram voto vencido.

Era o começo do fim.

O grupo passou bastante tempo na fazenda e, quando estavam prestes a estrear em Salvador, ocorreu a ruptura. Claudio Tovar e Lennie Dale brigaram por causa de um cenário e o coreógrafo americano, que na época enfrentava um sério problema com as drogas, decidiu abandonar o grupo.

Os Dzi Croquettes ficaram esquecidos durante muito tempo. No entanto, a influência que tiveram na cultura brasileira é visível até hoje. Muitos artistas se inspiraram no estilo croquetteano. O Teatro do Besteirol, representado por nomes como Mauro Rasi, Miguel Falabella, Jorge Fernando, Luis Fernando Guimarães, Claudia Raia e a trupe do Asdrúbal Trouxe o Trombone, é um exemplo disso. No cenário musical, Ney Matogrosso não poderia representar melhor os Dzi, além do grupo “As Frenéticas”, cujas integrantes se juntaram por causa deles.

Os rapazes logo quiseram voltar ao Brasil, e o grupo acabou se desfazendo, apenas três anos depois de sacudir do Rio a Paris.

SAIBA MAIS

Confira o documentário Dzi Croquettes, de Tatiana Issa e Raphael Alvarez: https://www.youtube.com/watch?v=rgy8fXEqw98

VÍDEOS

Dzi Croquettes – Dois Pra Lá Dois Pra Cá: https://www.youtube.com/watch?v=7AldIoextf8

Dzi Croquettes apresentam musical no Fantástico: https://www.youtube.com/watch?v=w4Xx8BYu6Gw

Vingativa (Wagner Ribeiro): https://www.youtube.com/watch?v=aq9ML8JYbDE

Entrevista com Tatiana Issa e Raphael Alvarez, diretores do filme “Dzi Croquettes: https://www.youtube.com/watch?v=iipMvYjwuuI

Arte com Sérgio Britto – Dzi Croquettes (1/2): https://www.youtube.com/watch?v=XqwpNZ7hgns

Arte com Sérgio Britto – Dzi Croquettes (2/2): https://www.youtube.com/watch?v=bM5mrEMLGlk

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