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ARTES: Dimensões do criar?

No primeiro artigo,  uma das questões apresentadas foi “O que é poesia?”, pergunta que conduz a múltiplas respostas  que não se esgotam em si mesmas.  Utilizando o retrovisor do fazer poético, perguntamos:  Qual o seu limite?  Ampliando, quais os limites das artes em geral?

Vivemos num mundo sujeito às leis das dimensões, sejam naturais e/ou impostas.  Seriam tais fatores aplicáveis à poesia? Se impostas, por que razão, que conexões perigosas poderiam conter em seu microssitema , ou circuitos,  a tal ponto de se tornar uma ameaça ao sistema social, conforme concebido pelos detentores vigilantes do Poder que buscam indícios de detonadores que possam explodir suas verdades e conceitos e desviem as  massas de  um lugar “seguro”?

Neste momento de transformação e turbulência atual, a cultura vem sendo penalizada. Como nos procedimentos cirúrgicos, é como se por causa de  uns tumores que podem perfeitamente serem extirpados, tratados isoladamente, condena-se todo o corpo como se a metástase já estivesse instalada.  A poesia, a expressão poética do eu,  fruto de momentos de  inspiração,  é considerada um paciente e não está imune a tal condenação, no todo ou em parte.  Mais ainda a poesia contida nas tantas músicas e outras criações artísticas.

DIAGNÓSTICO:    Poder de reflexão, de empatia, de recriação que a arte provoca e evoca, alterando configurações de paradigmas cerebrais.                     Visão míope para realidades impostas.

PRESCRIÇÃO:   “ Terapia” através da repetição de símbolos, paradigmas  que mantenham pacientes situados na estrutura dos acontecimentos vigentes. Sem os efeitos colaterais decorrentes de questionamentos.

PREVENÇÃO:  –  Antídoto contra Pensadores, Artistas de quaisquer modalidades que possam provocar reflexão e criação fora dos moldes oficiais.

Este padrão de diagnose, pode-se dizer que é milenar.  Já se notava na antiguidade clássica.    No decorrer dos séculos, quantos não foram condenados à fogueira, à masmorra, ao exílio, outras penas capitais e o crime foi pensar ou induzir outros a pensarem? Quantas obras tiveram suas  partes amputadas em detrimento do considerado “bem comum”?    Quantas  culturas tiveram seus bens espoliados, como se retira o brinquedo perigoso ou substâncias das mãos dos bebês?

Destruir, descaracterizar no imaginário popular a imagem de pensadores, de artistas e suas produções, ou de qualquer algoz, é um esforço de intervenção dos dominantes, seja sutil ou explícita, por vezes nas entrelinhas de propostas aparentemente brilhantes, mas perversamente direcionadas para um fim específico.  Porém a resistência por todos os períodos de trevas se deu pelo  rompimento de limites,  ainda que fadada à sobrevivência na marginalidade, na clandestinidade, nas apresentações em espaços chamados alternativos, na reescrita das poesias, músicas  por meio de  linguagem codificada, mais hermética, passando assim pela lupa dos censores.

A arte é transcendência, vai além de sistemas rígidos, rompe muralhas, sobrevive aos porões, aos guetos, pois é parte integrante do ser humano que pensa, que cria – aspecto imortal do que é mortal. É o lidar com o ilimitado do que é perene.   É inspiração, é vida que flui em sua extensão além dos gestuais programados, além do traço, da forma moldada, além do som, da cadência, do ritmo e como tal, não cabe em si, não se delimita em contornos e tende à universalidade.

Para ilustrar, reproduzo abaixo parte do texto constante em um painel que abre uma das salas da exposição das obras de Tarsila do Amaral, no MASP – Museu de Arte de São Paulo – “TARSILA POPULAR”.

“Nenhum artista consegue escapar da influência do contexto, das idéias do seu tempo” – Tarsila

‘Em um contexto de crise global pós 1929, a pintura da artista começa a se deslocar das imagens otimistas do Brasil para temas realistas e sociais.  As figuras humanas aumentam em número e proporção, ganhando o primeiro plano das composições.  Os personagens são pintados com forte delineamento do rosto, mostrando seus corpos e suas expressões, muitas vezes de sofrimento pelas dificuldades impostas em um país desigual, como em Trabalhadores (1938) …’

Tarsila do Amaral, nas artes plásticas e Oswald de Andrade na poesia, e outros,  foram expoentes do Movimento Antropofágico (Vale à pena aprofundar). Em pleno Modernismo, vemos a busca pela identidade nacional, a parábola proposta  de deglutir  o que era cultura européia e norte-americana, para inserção da realidade e riquezas nacionais com toda sua diversidade –  é  uma reflexão para a atualidade, quando observamos muitos valorizando o que está além de nossas fronteiras, enquanto que temos esta rica diversidade cultural, que necessita do cultivo para crescer, para eclodir.

Ainda em Tarsila, seguem palavras do curador da exposição, Fernando Oliva:

“A exposição e o catálogo que a acompanha pretendem promover reflexões mais abrangentes sobre Tarsila, articulando sua vida e obra no contexto de uma visão política, social e racial da cultura brasileira e do modernismo — um movimento que, no Brasil, raramente é abordado sob esses prismas”.  Destaque: década de 30!

Lá pela década de 60, artistas eram cerceados nas mais diversas modalidades: livros proibidos, filmes, peças de teatro, músicas, poesias,  gingles, cartazes censurados.

No final da década de 60, tivemos o Movimento Tropicalista, Tropicalismo ou Tropicália, nomes como  Caetano Veloso, Gilberto Gil,  Gal Costa, Tom Zé, Torquato Neves…

Na década de 70, surge o Movimento Marginal ou Marginália. Na poesia, chamava-se de “Poesia de Mimeógrafo”, alusão à utilização do mimeógrafo como alternativa à produção de seus trabalhos, já que não eram aceitos pelas grandes editoras.  O mesmo ocorreu com as demais modalidades artísticas, que sobreviviam à margem do que era selecionado como cultura aceita.   É interessante as estratégias dos artistas neste período. É de Hélio Oiticica a frase: “Seja marginal, seja herói” – síntese do movimento.

Na música, pejorativamente, criou-se o rótulo de  “Compositores Malditos”:  Tom Zé, Luiz Melodia, Jards Macalé, …  não se enquadravam na forma dominante ou nos moldes da indústria. Mas abriram caminhos na sua forma de expressão livre.

Os movimentos acima citados são apenas exemplificativos,  abordados “en passant” para reflexão sobre o fazer poético e  as pressões contrárias que buscam represá-lo ou limitar seu voo em diversos momentos históricos, desde antiguidade mais remota à atualidade.  Conhecer a história, os contextos e as forças sutis, ou explícitas,  do Poder que insistem em limitar o saber, é um importante ato consciente de cada  indivíduo  situar-se no contexto histórico, sendo protagonista de suas criações, realizações e não coadjuvantes de um grupo que detêm a competência legal,  o poder de mando, em nome de manutenção de uma ordem outra.

Compreender  como outrora a arte saiu das formas representativas, guturais e rupestres, conquistou as multidões que povoava o planeta, com suas múltiplas nuances, sem se repetirem, atravessando estilos, tendências; nos momentos de intensa repressão e tentativas de implosão, subsistiram mesmo atravessando calabouços, grades, ruínas, incêndios, poda de censores, e numa velocidade impressionante  atravessaram a “timeline” universal alcançando novos patamares, novas formatações, como se tivessem  vida própria mutante, amada ou odiada,   é condição fundamental para se  viver a cultura.  O que possuímos enquanto tradições que se diferencia do continente alheio?  A enumeração não se esgota.

Retornando à questão inicial, qual o limite do fazer poético, da inspiração?  Qual a sua dimensão?

Finalizo com um recorte da poesia de cordel, do escritor Edmilson Santini, em “Arte Pública – Uma Peste Anunciada”, livro adquirido na FLIST – Festa Literária de Santa Tereza 2019 – RJ

“Indo do palhaço ao mímico,

Contamos ser uns trezentos,

Que em coro soam quinhentos.

Nesse mar de mundo rímico,

De cantar macunaímico,

Sonhos da diversidade,

Miscigena liberdade…

Pra refresco de memória,

Vamos voltar na História,

Beirando a modernidade: …”

 

Por  Edna Queiroz

 

2 Comments
  • Pandora

    maio 3, 2019 at 2:34 pm Responder

    Muito bom!

    • Edna Queiroz

      maio 3, 2019 at 8:46 pm Responder

      Obrigada. Esteja à vontade para interagir sempre!

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