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Ivanildo Vila Nova e o Nordeste Independente: um grito de resistência que ecoa no tempo

Inicio este texto com emoção, afinal falo de algo que é caro e que compõe minha essência:  o Nordeste. E não há como falar do Nordeste sem pensar nas enxurradas de agressões que o nosso povo vem sofrendo nos últimos pleitos nacionais. Enquanto pensava no que escrever, pensava na violência expressas nas redes sociais, pensava na contribuição cultural, social e política que o Nordeste fez e faz para o Brasil, pensava no Nordeste ao longo da história do Brasil.

Pensando em tudo isso, como se ligasse o botão de modo automático em minha cabeça, ecoou em minha mente a seguinte frase: “Imagine o Brasil ser dividido e o Nordeste ficar independente…”. A frase veio musicada, entoada por Elba Ramalho.

Resolvi buscar a versão original, do autor do repente, Ivanildo Vila Nova. Achei, além de vídeos, muitas reportagens, dentre as quais uma que foi publicada este ano a partir de uma entrevista concedida ao site OP9, no ano de 2018 depois das eleições presidenciais, período em que se vivenciou uma onda de agressões, principalmente nas redes sociais, aos nordestinos.

Uma frase muito forte de Vila Nova chamou-me a atenção “…Já nasci com essa separação.”. De fato, quem é nordestino, acredito que até a minha geração, cresceu com o sentimento que sul e sudeste eram regiões pródigas, quase um outro país. Algo distante para nós. Quem ia para essas regiões, tentar a sorte, fugir da seca, do desemprego, entre outras, quase nunca voltava.

Particularmente, tenho meus tios-avós que vão completar mais de cinquenta anos que migraram para São Paulo. Nunca mais voltaram. Por terem se estabilizado na cidade “avesso, do avesso, do avesso, o avesso”, como diz Caetano Veloso, passaram a ser considerados bem-sucedidos. Eram vistos como referências: filhos formados e trabalhando, casa própria… Tudo era possível quando se estava no sul.

De fato, convivíamos com a negativa de sermos nordestinos. Crescíamos rodeados de mística, fé e destino. No destino nos deparávamos com as limitações de ser Nordeste. “O Nordeste só dá certo quando saí do Nordeste”, disse-me uma vez um professor enquanto falava de seu ídolo Raul Seixas, outro nordestino. Assim como tantos de sua geração, nosso Raulzito migrou para Sul buscando construir carreira. E no cenário artístico temos muito exemplos… Não à toa o cantor cearense Ednardo canta “ … Vou-me embora daqui pro Rio de Janeiro, as coisas vem de lá, eu mesmo vou buscar, E vou voltar em vídeo tapes e revistas supercoloridas.”

Com as múltiplas histórias de sucesso, nelas incluída a do Rei do Baião, Luiz Gonzaga, cuja consagração veio a partir do eixo Rio-São Paulo, a Pasárgada do nordestino, principalmente o artista, materializava-se fora do Nordeste.

Mas, vocês me lembraram que realmente é nesta Pasárgada que se encontram as principais gravadoras, as grandes empresas artísticas, etc, etc e etc. O que não questiono. Contra fatos não há argumentos.

O que discuto é a pejorativação do Nordeste, algo que não começa de agora. Durante toda a história da televisão, por exemplo, o nordestino foi um povo apresentado de maneira caricata, de forma a ser desconsiderada nossa diversidade cultura, apagando as nuances que existem de estado para estado da Região e, inclusive, de microregião para microrregião (só quem foi vítima de bulling por chamar “bichinho” ao invés de “esse minino”, ou falar “pão aguado” no lugar de “francês”; ainda chocar-se por chamarem picolé (sacolé) de dudu, estranhar alguém falar ‘muitcho’ em vez de usar o termo ‘um monte ou um bucado’, ‘os trem’, ‘ar bila’ (bola de gude)… Poderia passar horas falando das diferenças na fala, na comida, no modo de ser de microrregião para microrregião, e olhe que só me vem a cabeça Pernambuco). Enfim, muitos anos e de distinta forma o Nordeste foi descrito de maneira simplista, mesmo dando ao Brasil tantos poetas, artistas, intelectuais…

Acredito este mal seja em virtude do nosso passado. Uma maneira de diminuir a contribuição do Nordeste ao Brasil… E não falo apenas da mão de obra que elevou arranha-céus no Sul/Sudeste e povoou o Norte no século XX. Falo da construção social do país.

Desde a Guerra dos Aimorés até o Ocupe Estelita (este último muito questionado por mim quanto ao seu caráter político, mas não posso negar seu impacto na sociedade da informação), o Nordeste sempre mostrou-se disposto a fazer frente e resistir, sem querer ser bairrista, mas já o sendo (coisa que aprendi com os recifenses).

Guerra dos Palmares, Levante dos Tupinambás, Insurreição Pernambucana, Confederação dos Cariris, Conjuração Bahiana, Confederação do Equador, Revolução Pernambucana, Revolução Praieira eternizada na música de Chico Science…

Sem falar em Canudos, Caldeirões de Santa Cruz do Deserto, Sedição de Juazeiro (estas últimas são muito afetivas para mim, visto que ocorreram justamente no Sertão, meu lugar de fala). Não posso esquecer das Ligas Camponesas, na década de 1960, que preparou o rural brasileiro para a luta pela terra de plantar. Movimentos que, em suas contradições, como bem recorda o cantor cearense  Zé Vicente, são lutas ontem e de hoje, do agora…

Forjaram o arcabouço político, social e cultural do Nordeste. Deu base aos nossos valores, as nossas crenças, aos nossos medos, as nossas coragens, a nossa fé. Consequentemente, deu fundamento – com as devidas ressalvas – a máxima de Euclides da Cunha de que, embora nossa fragilidade aparente, éramos fortes (recordando que Sertão também é Nordeste).

E é no contexto das discussões sobre a fome, seca e miséria do nordeste, sobre as possibilidades da região tornar-se produtiva ou não, que Ivanildo Vila Nova constrói sua poesia. Busca mostrar o quão infeliz é o conceito de que o Nordeste é “ruim, seco e ingrato”, apontando nossas riquezas naturais e culturais.

Terra, sol, chuva, seca, frutos, sementes, tudo no Nordeste produz além do valor de troca o valor simbólico, da poesia, do significado. Valor que faz do Nordeste o Nordeste. A cachaça, a renda, a música, a fé, a indústria… O Nordeste, para Ivanildo, tinha e tem condições para se tornar outro país, rico, feliz, independente.

O repente de Vila Nova talvez tenha conseguido sintetizar todos os anos de lutas por dignidade e respeito. Ecoa, no contexto da atual sociedade, como uma afronta direta aos fascistas cujos discursos de ódio e violência se propalam nas redes sociais. É música de ontem, é música de hoje.

Obviamente, tanto Vila Nova – que é realmente a favor do Movimento Separatista do Nordeste (o qual conta com mais de 11 mil seguidores nas redes sociais) -, como esta que vos escreve sabem bem que não é possível a separação do país. Apesar de me alinhar aos que defendem com unhas e dentes o patrimônio cultural nordestino, também não posso excluir os elementos que os produziram, entre eles as trocas culturais, desde os elementos das culturas portuguesa, moura, italiana, cigana (sim, tudo isso há no Nordeste), até as trocas entre as regiões sul/sudeste e norte; e, logicamente, entre as suas microrregiões.

O Nordeste é versátil. Árvore frondosa que, mesmo em tempo de secas, floresce. Vai resistir. Continuará a superar as expectativas, a enfrentar a peleja sem desanimar. Produzirá versos para cada novo nascer do sol, cada novo ciclo da seca ou da chuva, falará do amor primeiro da menina que vira moça. Eu continuarei com ele e nele.

Consigo imaginar o Nordeste Independente. Mas, consigo imaginar algo bem melhor e que não é irreal: um Brasil tolerante, que valoriza, respeita e trata com dignidade a diversidade cultural de sua gente. Que não faça chacota do nosso sotaque, da nossa gente, dos nossos valores, do nosso jeito de se expressar, dos espaços que podemos ocupar e que vamos ocupar, pois sabe que também somos Brasil. Que não exija que eu retorne apenas em “vídeo tapes e revistas supercoloridas”, pois eu preciso sentir e viver o Nordeste para poder ser o que eu sou.

Por fim, não nos desvincularemos do Brasil, o qual ajudamos a formar e o qual nos forma. Ao contrário, continuaremos a engendrar novas formas de resistir no campo da política, das lutas sociais, da cultura e, até da fé: como falava minha avó, cantaremos as ‘Incilença’ nos momentos de dificuldades e vamos tirar novenas e renovações nas épocas das alegrias.

 

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