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PALAVRAS SÃO PALAVRAS…

A expressão “Palavras são palavras, nada mais que palavras”,  ainda ecoa no inconsciente dos tantos expectadores contemporâneos ao personagem  Valfrido Canavieira, interpretado por Chico Anysio no programa Chico City, entre os anos 1973 a 1980 – bordão consagrado até a atualidade, reproduzido até por não nascidos naquele período. Por tantas vezes repetido,  leva-nos à reflexão sobre o poder que as palavras podem exercer de acordo com a infinidade de contextos.

Seriam só palavras emitidas destituídas de significados, ou teriam um alcance muito mais além de sua emissão?  Quando, em que circunstâncias?  Teriam o poder de impactar gerações, motivar ou bloquear a psiqué, promover a paz ou decretar a guerra, acalentar ou ferir com suas arestas pontiagudas? Podem conferir ao emitente o status de segurança/imaturidade, ousadia/medo, envolvimento/fuga,  verdade/mentira, e outros atributos como (i)lógicas, (ir)racionais,  ego/excêntricas, prazer, revolta, inspiração?…  Numa provocação aos sentidos, não cessariam os exemplos, os estados, sensações e sentimentos a partir de seus significados.  Se consideradas como só palavras, no sentido do dicionário, poderia representar um antídoto imediato que impede danos maiores ao rebaterem no remetente, apesar de toda a carga semântica negativa ou teor explosivo que venham possuir diante da intenção as quais foram proferidas.

Vivemos, convivemos, no universo das palavras, herdadas, criadas, recriadas, recicladas, potencializadas, na imanência do comunicar.  A Torre de Babel, simbolismo bíblico que conota confusão, mistura, aí está se fundindo o universo lingüístico em um país ou em contexto mais amplo, englobando todas as nações.  Palavras, com vidas próprias, movendo o mundo, as inter-relações, a vida, as tradições, as expressões artísticas – sejam na música, na poesia e outras produções literárias.   São as matérias-primas  do dizer, desde o mais coloquial ao rebuscado e povoam o universo, denominando tudo ao redor, emitindo identidades.

Concluo com as poesias de Adélia Prado e Carlos Drummond de Andrade.  Pra parar e pensar nas nuances poéticas e que abrem um campo de possibilidades ao serem projetadas para o todo poético e o não-poético.  É mágico!

ANTES DO NOME

Adélia Prado (fragmento)

“Não me importa a palavra, esta corriqueira.
Quero é o esplêndido caos de onde emerge a sintaxe,
os sítios escuros onde nasce o «de», o «aliás»,
o «o», o «porém» e o «que», esta incompreensível
muleta que me apoia.

(…)
A palavra é disfarce de uma coisa mais grave, surda-muda,
foi inventada para ser calada.
Em momentos de graça, infrequentíssimos,
se poderá apanhá-la: um peixe vivo com a mão.
Puro susto e terror. “

PROCURA DA POESIA

 

(FRAGMENTO) – Carlos Drummond de Andrade

(…)

“Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consume
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.
Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.
Não adules o poema. Aceita-o
como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada
no espaço.

Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?

Repara:
ermas de melodia e conceito
elas se refugiaram na noite, as palavras.
Ainda úmidas e impregnadas de sono,
rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.”

 

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