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    “CHEGA DE SAUDADES” – TRIBUTO AO POETINHA

    Abrimos o artigo de hoje com o poema “POÉTICA”

    “De manhã escureço
    De dia tardo
    De tarde anoiteço
    De noite ardo.

    A oeste a morte
    Contra quem vivo
    Do sul cativo
    O este é meu norte.

    Outros que contem
    Passo por passo:
    Eu morro ontem

    Nasço amanhã
    Ando onde há espaço:
    – Meu tempo é quando.” (VM)

     

    Outubro: mês especialíssimo na timeline da nossa história cultural.  No bairro da Gávea – Rio de Janeiro, no dia 19  nascia o menino Marcus Vinicius. Era o ano de 1913.

    Década da 1ª. Guerra Mundial (1914-1919). Durante e períodos subsequentes foi  uma época de grandes transformações na sociedade brasileira e no mundo.  Cá houve  todo um movimento para a formação da cultura  nacional, que teve por auge a década seguinte, 1922,  com a  “Semana de Arte Moderna” – marca do Modernismo no Brasil, com propostas inovadoras  sejam na pintura, escultura, poesia, arquitetura, música, um corte com o status quo vigente.   A questão aqui não é discorrer sobre os ricos dados históricos, sociais, políticos e artístico da época, mas apenas servirem como pano de fundo para situar o contexto de nascimento e a década seguinte do menino Marcus. Fatos que valem à pena serem reestudados, para a melhor compreensão da realidade cultural da atualidade.  E a televisão só foi inventada em 1926!

    Marcus Vinícius se tornou o poeta.  Em 1937 teve seu soneto publicado na Revista Anauê: “ Soneto à Katherine Mansfield” (escritora da língua inglesa).

    O teu perfume, amada — em tuas cartas
    Renasce, azul… — são tuas mãos sentidas!
    Relembro-as brancas, leves, fenecidas
    Pendendo ao longo de corolas fartas.

    Relembro-as, vou… nas terras percorridas
    Torno a aspirá-lo, aqui e ali desperto
    Paro; e tão perto sinto-te, tão perto
    Como se numa foram duas vidas.

    Pranto, tão pouca dor! tanto quisera
    Tanto rever-te, tanto!… e a primavera
    Vem já tão próxima!… (Nunca te apartas

    Primavera, dos sonhos e das preces!)
    E no perfume preso em tuas cartas
    À primavera surges e esvaneces.  (VM)

     

    Do lirismo, passou a  poemas com linguagem mais simples,  utilizando a sensualidade, assim como abordava temas sociais, como por exemplo, Rosa de Hiroshima, reportando-se à bomba lançada sobre Hiroshima e Nagasaki, no Japão, durante a 2ª Guerra Mundial, musicado mais tarde, em 1973, pela Banda Secos e Molhados, na voz de Ney Matogrosso.

    “Pensem nas crianças
    Mudas telepáticas
    Pensem nas meninas
    Cegas inexatas
    Pensem nas mulheres
    Rotas alteradas
    Pensem nas feridas
    Como rosas cálidas
    Mas oh não se esqueçam
    Da rosa da rosa
    Da rosa de Hiroshima
    A rosa hereditária
    A rosa radioativa
    Estúpida e inválida
    A rosa com cirrose
    A antirrosa atômica
    Sem cor sem perfume
    Sem rosa sem nada.” (VM)

    Dedicou-se também à literatura infantil, criações que  estão na memória popular das crianças de todos os tempos, entre tantas, “A CASA:  Era uma casa muito engraçada / Não tinha teto? Não tinha nada…”  que mexe com o imaginário de quem quer que seja.  Que casa é esta?  (*)

    Poeta, dramaturgo, jornalista, cantor, compositor, diplomata. Apelidado de Poetinha por Tom Jobim, afirmou que poesia foi sua  maior vocação. Artista múltiplo, transitou também pelo  cinema, sem contar sua participação na gestação da BOSSA NOVA,  gênero musical genuinamente brasileiro, juntamente com Tom Jobim, João Gilberto, principais representantes do movimento, e outros ícones.

     

    Reconhecido e consagrado no mundo, Marcus Vinicius da Cruz e Mello Moraes, nosso eterno VINÍCIUS DE MORAES,  deixou-nos este legado, esta herança de valor inestimável de usufruto ilimitado, tanto por nativos como pelo  mundo afora. Presente no DNA artístico dos que vieram após.  Atitude que conta e canta as coisas do coração, da vida cotidiana, do Brasil. Conta e canta dos amores e dramas deste mundo, convidando o leitor à perplexidade das ações, do pensar em forma de poesia.  Trouxe, de igual forma, o lado lúdico, da criança que carece da essência do brincar, de sonhar, presente ainda na nossa vida enquanto adultos.  Foi parceiro dos grandes da literatura e da música, seus contemporâneos.  E deixou sua marca na cultura nacional.

     

    Parodiando uma fração de sua composição com Tom Jobim, concluímos com o verso  “Chega de saudade”, verso poético que deu nome ao disco lançado por João Gilberto, na inauguração do gênero Bossa Nova, que completou 60 anos neste ano de 2019. Verso aplicável aqui neste sentimento que não tem fim, mas que pode ser traduzido, com toda a licença, na  saudade desta luz, desta dedicação e mergulho para a formação da cultura nacional, deste símbolo a que o mundo inteiro rende tributo. E que seja nosso tributo no hoje, ‘onde houver espaço’, neste denso cenário da atualidade.

     

    (*)  Para quem desejar matar a curiosidade,  foi inspirada na Casapueblo, antiga casa de verão do artista plástico e arquiteto uruguaio CARLOS VILARÓ, considerada uma “ escultura habitável.” Que foi  modelada por 4 décadas, hoje museu. (https://www.metrojornal.com.br/estilo-vida/2018/10/07/casapueblo-construcao-que-inspirou-vinicius-de-moraes-e-a-atracao-mais-visitada-do-uruguai.html )

    (*) Sem pretender esgotar quaisquer dos pontos citados ou enumerações citados, devido a sua infindável riqueza, o presente artigo apenas representa um convite ao leitor a este tour cultural em torno do poeta Vinícius de Moraes.  Viagem que, quantas vezes repetidas for, mais  nos deleitamos com o  que presenciamos e seus desdobramentos.

     

     

     

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