Newsletter

Just enter your email to get all the latest offers

[cta_recaptcha* cta_recaptcha]

O Novembro Azul, Machismo e Masculinidade

Caro leitor, antes de prosseguir nas linhas adiante, preciso que reconheça dois fatos relevantes. O primeiro é que boa parte dos problemas de saúde pública se trata com educação e informação. O outro é que a grande maioria da população não tem acesso a dados e orientações médicas. Muitos são analfabetos e mesmo com ordens claras, diretas e objetivas, tendem a não seguir as recomendações.

Novembro Azul: para lembrar de exames e discutir preconceitosÉ importante destacar isto pois é necessário entender que, apesar de Saúde Pública ser um tema universal, que atinge todos os cidadãos, não é de interesse e conhecimento geral. Apenas uma minoria percebe e discute sua importância. Sendo assim, não escrevo para convencer ou alcançar os mais afetados pelos preconceitos e ignorâncias, mas para você, que chegou até aqui e que pode ajudar, como influenciador, a mudar a mentalidade machista que provoca mortes.

Algumas informações gerais sobre Saúde:

A Organização das Nações Unidas tem uma agência especializada, a OMS (Organização Mundial da Saúde), que participa de pesquisas e ações que orientam diversos países. Esta agência define saúde como o “estado de completo bem-estar físico, mental e social e não consistindo somente da ausência de uma doença ou enfermidade”. Usaremos este conceito adiante.

O motivo de citar uma instituição internacional é para ressaltar que a discussão de saúde de populações é diferente de um médico que estuda a situação de um indivíduo (por vez). Apesar das diferenças no escopo da análise, a pesquisa na população ou um diagnóstico individual precisa levar em consideração as questões socioculturais. Neste texto, preciso que você, leitor, entenda que o foco é o aspecto global, mas que cada indivíduo é importante, especialmente na formação cultural.

No Brasil, o acesso à Saúde é um direito constitucional:

Art. 196. A saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação.

Art. 197. São de relevância pública as ações e serviços de saúde, cabendo ao Poder Público dispor, nos termos da lei, sobre sua regulamentação, fiscalização e controle, devendo sua execução ser feita diretamente ou através de terceiros e, também, por pessoa física ou jurídica de direito privado.

Os artigos seguintes, até o 200, basicamente definem o funcionamento e os papéis do SUS (Sistema Único de Saúde, escalonado entre Governo Federal até os locais) e as empresas privadas que atuam no setor.

As experiências apontam que as políticas públicas voltadas à informação e aos hábitos saudáveis têm grande eficiência, reduzindo os casos de doenças e gerando economia. São diversas as campanhas de caráter publicitário que, de fato, impactaram os quadros de saúde em todo o mundo. Um caso interessante, no Brasil, foi a Revolta da Vacina, quando, em 1904, o médico sanitarista Oswaldo Cruz colocou em prática a imunização obrigatória contra a Varíola. Grande parte da população se revoltou contra as agulhadas. A lição aprendida é que não bastam injeções eficazes, as pessoas precisam estar engajadas.

Neste sentido, além da disponibilidade de medicamentos, médicos, exames e hospitais preparados, as campanhas de saúde têm que disseminar informações que estimulem comportamentos saudáveis. Por esta razão é desenvolvido um calendário que alinha as incidências de doenças típicas de cada região à época do ano, com a finalidade de gerar debates e informar a população.

Como exemplos atuais, é possível destacar as campanhas de distribuição e incentivo ao uso de camisinhas no verão, os combates contra a proliferação dos mosquitos causadores de arboviroses (Dengue, Chikungunya, Febre Amarela etc.), Janeiro Branco traz à tona as questões de saúde mental. Enfim, as ações e as informações caminham juntas para alavancar os resultados, de forma estratégica baseada em estudos socioambientais.

Novembro Azul e a Masculinidade

Poucas ideias são tão prejudiciais quanto a de que o Homem é o sexo forte. O efeito psicológico do machismo é devastador não apenas nas interações sociais, apontadas pela mídia e pelos movimentos feministas, como também na própria saúde masculina.

O Outubro Rosa já alcança um grande público há mais tempo que o Novembro Azul, com mais marcas engajadas e as pessoas compartilham com mais facilidade. A força das campanhas contra o câncer de mama é tanta que muitos se surpreendem ao saber que o câncer de próstata é o segundo tipo de maior incidência, mais comum que o de mama, e não tão frequente quanto o de pele. Outro dado de destaque é que o câncer de mama também pode atingir homens, mesmo sendo muito raro, 1% dos casos. Enquanto o câncer de próstata, por sua vez, só é possível em homens, por motivos óbvios: mulheres não têm tal glândula.

A masculinidade baseada nos valores de força, resistência e dominação é muito presente até a geração dos Baby Boomers (nascidos entre 1945 e 1965). Não quero fazer deste um artigo sobre super-heróis, mas o Superman é um bom personagem para ser analisado sob a ótica da representação do universo masculino. É um dos heróis mais presentes e citados, se não for o mais, no mundo dos quadrinhos. O homem de aço, criado na década de 1930, diferente de outros personagens mais modernos, dificilmente mostra qualquer vulnerabilidade. A criptonita, que retira suas forças, é o único ponto fraco. Para evitar ser pego de surpresa pelos inimigos, ele mantem segredo do mineral que, curiosamente, é o único elo que o liga à infância. A mensagem clara é a de que, para se manter distante do que lhe tira o poder, ele precisa se desligar do passado e assumir o papel de homem adulto determinado, que luta para salvar a humanidade em atos grandiosos.

A Geração X, seguinte, deu um rosto real ao Superman no cinema, e depois viu Christopher Reeve sofrer um acidente e ficar tetraplégico. Um Super-Homem preso em uma cadeira de rodas é uma imagem que pode ser extensamente analisada. Certamente não é o único episódio que representa algumas transições de valores machistas, mas escolhi pelo simbolismo da mudança de paradigmas de masculinidade.

A geração Y, com os Millennials, cresceu em um mundo em que o antigo estilo de vida não cabia mais. A principal mudança de perspectiva é que os novos homens, ao invés de quererem conquistar o melhor lugar do mundo (carreira meteórica de sucesso e representatividades materiais), sonham em mudar o mundo.

Esta mudança, no entanto, não ocorre de forma disruptiva. Ela se configura aos poucos, e não de uma geração para outra. As transformações acontecem em cada indivíduo no ritmo próprio. A indústria cultural desempenha um papel fundamental nesta transformação e, por isso também, apontei o Superman como ponto de observação. Honestamente, nem sou grande fã de quadrinhos e este, nem de longe, passa como meu preferido, mas certamente é uma baita representação de masculinidade.

Os homens X, Y (Millennials) e Z são cada vez mais preocupados com questões de paternidade através do afeto, e não do sustento meramente. Não sentem a necessidade de parecerem invencíveis o tempo todo. Choram e acreditam que emoção não é fraqueza. Preocupam-se com a felicidade da parceira, ou do parceiro, dos familiares e amigos. Para os filhos, o exemplo que deixam são os de homens que fazem um mundo melhor, e não o dos que conquistam o melhor lugar no mundo, como citado anteriormente. Eles sabem que o melhor lugar do mundo é, na verdade, o abraço dos que amam.

O processo é longo e cada mudança pode levar uma vida para se realizar. Este novo homem, não-machista (ou menos machista), ainda está em construção. Ele reconhece no pai, ou em quem tem como referência paterna, nas gerações anteriores, características que refuta, mas que muitas vezes ainda perpetua. Frequentemente repete, ou reage, com uma confirmação natural a comportamentos e discursos que sabe serem preconceituosos e antiquados. São piadas de gêneros, observações que objetificam o corpo feminino e diversas outras ações. Ele as faz com a finalidade de encontrar pontos em comum com outros homens em ambientes onde não há intimidade. É a reprodução de um comportamento, ainda esperado, como forma de criar uma interação social. É uma programação mental que aos poucos começa e precisa se desfazer.

Faço aqui a mea-culpa e reconheço em mim o ato de relativizar declarações machistas em conversas com outros homens, especialmente com os mais velhos. Os diálogos em grupos de pessoas que têm ideias semelhantes às da minha geração costumam ser mais sinceras, como este artigo, mas muitas vezes repito ou não critico posicionamentos excessivamente machistas. Percebo que, eventualmente, esquivo-me de algumas discussões para evitar desgaste – penso não ser possível levantar reflexões em qualquer tipo de ambiente e situação.

Ainda assim, percebo que as interjeições discordantes ao machismo são cada vez mais frequentes nestes “territórios masculinos”. Os levantes, no entanto, raramente evidenciam as fragilidades do homem. Elas são geralmente em defesa das mulheres ou demonstram uma mentalidade de igualdade. O machismo, que tem como uma das imagens o Superman está enraizado de tal forma que os homens tendem a não expor nada que possa parecer fraqueza ou vulnerabilidade.É mais fácil defender a importância de uma sociedade na qual as mulheres são vistas de forma igualitária do que reconhecer e expor as próprias limitações e fraquezas.

“E o Novembro Azul?”, você deve estar se perguntando. Oficialmente é o mês em que os homens são mais alertados para que busquem cuidados com a saúde, em especial à próstata. Acontece que para verificar o estado da glândula, além dos exames de sangue, os médicos precisam realizar o toque. O exame físico nem sempre é necessário e varia em função do histórico familiar, que aponta propensões genéticas, e hábitos de vida. Mas a partir de certa idade, que também depende da análise dos riscos avaliados, todo homem deve passar pelo exame e não deveria ver problemas nisto. É uma questão de saúde.

O motivo dos exames é simples: mitigar riscos e melhorar a qualidade de vida. Todos vamos morrer de alguma causa. Se durante a infância e a juventude o indivíduo sobrevive às doenças infectocontagiosas, mais comuns nesta fase, aumentam as chances dele desenvolver doenças cardiovasculares, uma das principais causas de morte atualmente. Se, com boa alimentação e exercícios, ele estiver bem, vai envelhecer e estará mais propenso a doenças degenerativas e neoplasias (cânceres, que podem também aparecer cedo, mas tendem a surgir com mais idade). E quanto antes os problemas forem identificados, melhores as chances de tratamento e melhor a qualidade de vida.

Não podemos mudar o fato de que vamos morrer, mas podemos escolher viver melhor e por mais tempo.

E o que isso tem a ver com o machismo?

Para muitos a questão chega a ser absurda, mas o fato é que muitos homens se recusam a fazer o exame de toque. Não conseguem separar o assunto médico da sexualidade e, por isso, não admitem um especialista introduzindo um dedo para examinar qualquer coisa que seja.

A mentalidade machista é arcaica e remete a diversos valores que contribuem para este comportamento de risco. Só há duas maneiras de combater isso: com informação, mostrando de maneira radical os efeitos de um câncer que pode ser evitado. A segunda forma é também com informação, destruindo os pensamentos machistas.

O primeiro tipo de combate é fácil. A mídia e os médicos já realizam. O segundo combate depende de cada um de nós. Compactuar com piadas sobre o exame de toque, não criticar as autoafirmações do “Super-homem machista”, acobertar sentimentos que possam transparecer vulnerabilidade… Tudo isso é muito prejudicial. Precisamos lembrar que somos todos humanos e que morrer é mais parte da nossa natureza do que demonstrar força.

Retomando o conceito apresentado, não basta evitar doenças, o equilíbrio físico, mental e social são fundamentais para garantir a saúde de forma integral. Finalmente chego à proposta que motivou a produção deste texto. E se a gente se cobrar menos e aceitar as limitações humanas? E se aceitarmos que o peso de falhar não existe fora da cabeça? E se nos predispormos a compreender os erros e, sem julgar, oferecermos o incentivo que um homem precisa para alcançar os objetivos?

Vamos aproveitar o que ainda temos em vida e cuidar para que durem da melhor forma possível. Vamos curtir o tempo com os que amamos.  Vamos gozar das atividades que ainda podemos realizar. Vamos viver plenos de amor e alegria. Vamos cuidar da única ferramenta que melhora conforme é usada: o corpo. Precisamos dele.

Os homens que somos hoje é que podem melhorar, ou não, a vida dos que ainda estão por vir. Vamos viver para ver um pouco mais.

No Comments

Post a Comment